Cadê a Audiodescrição que não está aqui? – Por Joana Belarmino


Tempo de leitura: 3 minutos

Lembram-se dos berradores que as famílias mandavam para a escola de Hogwarts para alertar os filhos sobre coisas que eles não podiam esquecer? Pois eu juro que adoraria ter, na vida real, um berrador daqueles bem gritados para toda vez que nossa audiodescrição fosse esquecida em conteúdos de mídia, institucionais, políticos, comerciais ou quaisquer outros.

Imagine a berraria que seria! Isto porque temos avançado nas políticas de acessibilidade, entretanto, quando se trata de #Audiodescrição para pessoas cegas a coisa fica difícil, pra não dizer, impossível.

O governo brasileiro lançou no último dia 18 deste mês, o seu clip publicitário, uma bela peça onde a mensagem principal é a da “Mãe Gentil”, cuidando dos seus filhos, num país que inaugura um novo dia, para “um só povo”. A música é bonita. A mensagem principal muito bem articulada, mas, e as imagens? Nós, pessoas cegas, escutamos o clip no Comitê Nacional  Cegos com Lula Presidente. Escutamos uma peça publicitária como se estivéssemos ouvindo rádio? Mas por que isso?

Simplesmente porque a #Audiodescrição foi esquecida. Escutamos o clip como quem ouve rádio, enquanto as belas imagens passaram ao largo, sendo vistas somente por aqueles que enxergam.

Felizmente as pessoas surdas foram lembradas. O clip contou com intérprete de Libras, e isto merece aplausos. Desta feita, porém, a “Mãe Gentil” não levou em conta os milhões de pessoas cegas e com baixa visão que gostariam de ter tido acesso pleno ao conteúdo divulgado. Infelizmente, o fato tem ocorrido com frequência nos conteúdos multimídia do governo federal, onde a #Audiodescrição não aparece de jeito nenhum.

Mas o que danado é #Audiodescrição? Se indagarão os criadores do clip, eles que estavam tão satisfeitos pelo produto que criaram. Pois eu lhes digo: Numa pesquisa que fiz agora no google com o termo, apareceram um milhão e cento e noventa mil resultados!

#Audiodescrição, senhores criadores, é uma estratégia de acessibilidade que já é garantida na Lei Brasileira de Inclusão, para todos os conteúdos multimídia divulgados pelo governo.                                 calma que não é difícil de implementar a estratégia em conteúdo. #Audiodescrição é simplesmente uma descrição das imagens contidas no produto, feita por equivalentes textuais.

No Brasil, temos centenas de profissionais aptos a fazer #Audiodescrição de boa qualidade, e, mais recentemente, a Inteligência Artificial tem sido uma bela coadjuvante nesse processo de descrição de imagens para que os cegos possam “vê-las”.

Inconformada por não ter acesso às imagens no clip, submeti o produto ao “Be My eyes”, um aplicativo que incorporou a IA nos processos de descrição de imagens para cegos. Vejam o resultado que obtive: “Na imagem, há uma mulher tocando acordeão. Ela está ao ar livre, em pé sobre uma superfície de terra com grama e pedras, próxima a um corpo de água que parece ser um lago ou rio. A mulher veste uma saia longa vermelha, uma blusa branca com suspensórios pretos e um chapéu de palha. Ao fundo, podemos ver árvores parcialmente submersas pela água e um céu parcialmente nublado. No canto inferior direito da imagem, há uma intérprete de Libras vestindo preto e fazendo sinais”.

Óbvio que o app não descreveu toda a sequência das imagens que vão aparecendo no clip. Um clip de fato muito bem-produzido, mas, com nota zero na questão da acessibilidade para as pessoas cegas.

É certo  que não temos os berradores de Hogwarts, mas, porque desejamos construir junto com o governo Lula, um país realmente inclusivo, vamos sim chamar a atenção quando nossa agenda for esquecida. Vamos sim, criticar e apontar os caminhos e as soluções para que a acessibilidade não seja esquecida e esteja transversalmente inserida nas ações de governo, como algo natural, como uma torneira que sempre possa ser acionada para uma pessoa cega, uma pessoa surda, uma pessoa com deficiência física, a fim de que um “país” de um só povo” não seja unicamente uma metáfora de vídeo clip, mas uma realidade verdadeiramente e progressivamente construída.

 

Joana Belarmino é mulher cega, jornalista, membro do CNCLP e colaboradora  do site do Comitê.


3 respostas para “Cadê a Audiodescrição que não está aqui? – Por Joana Belarmino”

  1. Parabéns pelo artigo! Sempre achei que o governo Lula está sendo muito mal acessorado em relação aos assuntos que tange as deficiências. E talvez por ser cego, me parece que a deficiência visual é sempre esquecida em praticamente todas as divulgações governamentais. Cadê os assessores do governo? Acho que estou meio cansado de berrar e não ser ouvido; berrar e não adiantar de nada em lugar nenhum!

  2. Bom dia.
    Muito bom o texto. Fazer uma crítica pode ter o intuito de diminuir. Neste caso é chamar a atenção de algo que esta faltando. Contribuir passa por este caminho.

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